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Golpe do falso delegado: por que polícia não cobra por Pix

Casos com presos no RS e no DF passam de R$ 2 milhões em prejuízo. Delegado não arquiva inquérito, muito menos por Pix: veja como o golpe começa e o que fazer.

Por Redação Celular de Perto · Edição: Bruno Teles

Brasão e placa da Polícia Civil de São Paulo na entrada da Divisão de Crimes Cibernéticos do Deic, com um policial à porta de uma sala ao fundo
Foto: Governo do Estado de São Paulo / Flickr (CC BY 2.0). Foto original, CC BY 2.0

O golpe do falso delegado começa com uma conversa íntima nas redes e termina com um "policial" exigindo Pix para encerrar uma investigação. Essa investigação não existe.

Nenhum delegado pode arquivar inquérito, e nenhuma polícia cobra dinheiro para deixar de investigar alguém. Quem pede isso comete extorsão.

O golpe voltou ao noticiário em 28 e 29 de setembro, com prisões em dois estados. No Rio Grande do Sul, a polícia prendeu 11 suspeitos que extorquiam homens de São Paulo, segundo o R7. No Distrito Federal, a Polícia Civil prendeu dois irmãos investigados pelo mesmo golpe, com mais de 20 vítimas só no DF, também segundo o R7.

Os números dos casos presos nesta semana

Onde O que a polícia informou Prejuízo estimado
Rio Grande do Sul 11 presos, 15 mandados em 11 cidades gaúchas e em Tijucas (SC); cerca de 100 vítimas em São Paulo mais de R$ 1 milhão
Distrito Federal 2 irmãos presos na nova fase da operação; mais de 20 boletins no DF mais de R$ 1 milhão

No caso gaúcho, cada vítima chegou a pagar entre R$ 10 mil e R$ 15 mil, segundo o delegado José Abonizio. Parte do esquema era tocada de dentro de presídios: em uma cela de Charqueadas, a polícia achou celulares usados no golpe.

Como o golpe começa

A investigação no RS descreve o roteiro em duas etapas, que se repete em outros estados:

  1. O perfil falso de mulher. Um golpista puxa conversa em rede social, ganha confiança e leva a vítima a trocar mensagens e fotos íntimas.
  2. O falso delegado. Depois, entra em cena um segundo perfil, com fotos de policiais civis e federais. Ele diz que existe uma investigação contra a vítima.
  3. A cobrança. O "delegado" exige dinheiro sob a ameaça de dar continuidade à suposta investigação. Amedrontadas, as vítimas pagavam.

No RS, os golpistas chegaram a usar a foto de um delegado de verdade, de Pelotas, para convencer as vítimas, segundo a polícia. Por isso a foto de perfil não prova nada.

A lei desmonta a história em uma linha

O ponto central da ameaça é a promessa de "arquivar o inquérito". Só que o Código de Processo Penal diz, no artigo 17: "A autoridade policial não poderá mandar arquivar autos de inquérito."

Ou seja, nem um delegado verdadeiro tem esse poder. O arquivamento passa pelo Ministério Público e pela Justiça, dentro de um processo formal. Não existe taxa, acordo por WhatsApp nem Pix para "sumir" com investigação.

O que o golpista está cometendo

Quem faz a cobrança pratica extorsão, crime do artigo 158 do Código Penal: constranger alguém, com grave ameaça, para obter vantagem econômica. A pena é de 4 a 10 anos de reclusão, e aumenta quando duas ou mais pessoas participam.

Fingir ser policial é outro crime, a usurpação de função pública (artigo 328), com pena maior quando o golpista lucra com isso. Se as imagens íntimas forem divulgadas sem consentimento, entra ainda o artigo 218-C.

Sinais de que o "policial" é falso

  • Chega por WhatsApp, Instagram ou Facebook, e não por intimação formal;
  • Tem pressa: quer o dinheiro "hoje", antes que o caso "vá para o juiz";
  • Pede Pix, transferência ou depósito, muitas vezes para conta de pessoa física;
  • Manda foto de distintivo, carteira funcional ou "documento do inquérito" pelo celular;
  • Pede segredo e diz que o caso "fica entre vocês".

Um só desses sinais já basta para desconfiar. O mesmo padrão aparece no golpe do falso contato judicial e no do falso advogado: alguém se passa por autoridade e cobra para "resolver" um processo.

Recebi a ameaça: o que fazer agora

  1. Não pague nada. Não existe investigação que se encerre com Pix.
  2. Não apague a conversa. Faça prints com o número, o nome do perfil, a data e a chave Pix que mandaram.
  3. Bloqueie e denuncie o perfil no aplicativo, depois de salvar as provas.
  4. Registre boletim de ocorrência. Vários estados fazem pela internet, como a Delegacia Eletrônica de SP e a da PCDF. O delegado José Abonizio orienta a não ceder à chantagem e a procurar a Polícia Civil: o registro ajuda a chegar ao grupo por trás do golpe.
  5. Se já pagou, avise o seu banco na hora e peça o bloqueio pelo MED do Pix. O passo a passo está no nosso guia de como denunciar golpe digital.

Quer conferir se a investigação existe?

Não use o número, o link ou o "cartório" que o golpista passou. Procure o telefone da delegacia no site oficial da Polícia Civil do seu estado e ligue você mesmo.

Se houver mesmo um inquérito, você será chamado por intimação formal para prestar depoimento, e pode ir acompanhado de advogado. Em nenhuma hipótese a conversa termina com uma chave Pix.

Se ameaçarem vazar fotos íntimas

A vergonha é a arma do golpe, e ela funciona porque a vítima tem medo de contar. Denunciar protege mais do que pagar.

A SaferNet Brasil mantém um canal de orientação anônimo e sigiloso, por chat e e-mail, para quem teve ou teme ter imagens íntimas expostas. O chat funciona às segundas, quartas e sextas, das 14h às 18h, e às terças e quintas, das 9h às 13h.

E se as imagens forem publicadas, o Marco Civil da Internet (artigo 21) obriga a rede social ou o site a tirar o conteúdo do ar depois de notificado pela própria vítima, sem precisar de ordem judicial. A plataforma que ignora o pedido passa a responder pelo dano.

A mesma farda serve para outros golpes

O falso delegado não mira só quem trocou mensagens íntimas. Em Uberaba (MG), o JM Online relatou em 29 de setembro a tentativa de um falso delegado contra uma idosa de 86 anos, com o golpe da "conta cofre".

A regra vale para as duas versões: polícia não guarda dinheiro, não pede transferência e não cobra para investigar ou deixar de investigar. Na dúvida, desligue e ligue você para a delegacia.

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