Pular para o conteúdo

Robô de trade promete lucro automático: o que a CVM diz que um robô pode e não pode prometer

Robô de trade que garante lucro automático? A CVM exige autorização conforme o tipo de robô e vê promessa de ganho certo como possível sinal de fraude.

Por Redação Celular de Perto · Edição: Bruno Teles

Celular sobre uma mesa com ícones de aplicativos de mensagem e redes sociais na tela, em foto de arquivo da Agência Brasil
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil (arquivo). Fonte original

Um robô que opera sozinho e promete lucro todo mês? Segundo a CVM, retorno certo não existe nesse mercado, e o serviço pode exigir autorização do órgão para funcionar.

A resposta curta cabe numa linha: robô que garante ganho está fazendo uma promessa que a própria CVM chama de irreal. O resto da conversa é saber quem precisa de autorização, como checar e o que fazer antes de mandar o primeiro Pix.

O que a CVM chama de robô de investimento

Na página "Robôs de investimentos", do Portal do Investidor, a CVM descreve esses serviços como sistemas automatizados para traçar o perfil e gerir o patrimônio do investidor, recomendar uma carteira, indicar o momento de entrar ou sair de uma posição e até enviar e cancelar ordens nos mercados organizados.

Pode ser uma startup, um banco ou uma corretora. O rótulo "inteligente" ou "de última geração" é o que a oferta diz de si mesma; para a CVM, o que pesa é o que o robô faz: aconselha, gere o dinheiro ou dispara ordens.

Os três tipos de robô e o que a CVM exige de cada um

A página separa os robôs em três tipos. A tabela abaixo segue o texto dela:

Tipo O que faz O que a CVM exige
Robô consultor Sugere uma carteira de ativos; quem compra e vende é o cliente Autorização da CVM, pela Resolução CVM 19
Robô gestor Recomenda a carteira e também faz os investimentos e o rebalanceamento Registro como administrador de carteiras de valores mobiliários, pela Resolução CVM 21
Robô de ordens Automatiza estratégias de curto prazo e envia e cancela ordens, muitas vezes em day trade Credenciamento como analista de valores mobiliários, pela Resolução CVM 20, em certos casos (veja abaixo)

No caso do consultor, a CVM cita o artigo 17 da Resolução 19: a consultoria feita com sistemas automatizados "está sujeita às obrigações e regras previstas" na norma. Em outras palavras, trocar a pessoa por um programa não tira a obrigação.

Robô de ordens: quando o credenciamento vale e quando não

É aqui que mais se escorrega. O Ofício-Circular nº 2/2019 da área de relações com investidores institucionais (SIN) da CVM trata das ofertas de estratégias padronizadas por sistemas automatizados, feitas para indicar oportunidades e momentos de operar. Para a SIN, isso é serviço de análise de valores mobiliários, atividade privativa de analista credenciado.

Mas o ofício traz um limite: o credenciamento é restrito às estratégias pré-definidas em que o investidor tem pouco ou nenhum poder de parametrização. Não alcança quem vende só um sistema que executa decisões tomadas pelo próprio investidor.

Na prática, a pergunta que separa os dois casos é simples: quem decide a estratégia, você ou o pacote pronto? Se o produto é "ligue e deixe rodar", a leitura da CVM é a mais exigente.

Frases que a CVM trata como possível sinal de fraude

A página pede atenção a expressões que indiquem ou sugiram "renda certa", "rentabilidade fixa" ou "garantida", e a percentuais fixos de ganho quaisquer com operações ou ativos indicados. A CVM diz que isso pode ser sinal de fraude.

A justificativa vem no mesmo texto: tais projeções "sequer são realistas" e levam o investidor a crer em ganho certo numa operação que, por natureza, tem risco e retorno sempre incerto.

Repare no verbo: "pode ser" sinal de fraude. A CVM não diz que todo robô com promessa é crime. Diz que a promessa, sozinha, já é motivo para parar e checar.

Dá para lucrar com robô de day trade?

A CVM não promete nem desmente: a página lembra que um estudo encomendado pelo órgão mostra que poucas pessoas físicas conseguem lucrar com day trade, a compra e venda do mesmo ativo no mesmo dia. E acrescenta que não há estudos indicando que, para pessoas físicas, os robôs de ordens tenham lucratividade maior.

O robô tira a emoção da decisão, e a CVM reconhece isso. Só que tirar a emoção não vira lucro garantido. Essa é a nossa leitura, apoiada no que o órgão escreve: a automação muda quem aperta o botão, não o risco da operação.

Como checar o registro pelo celular

Antes de contratar, a CVM manda verificar se o prestador de serviço é registrado. O Portal do Investidor tem a Consulta a Profissionais de Mercado, que reúne administradores de carteiras, assessores de investimentos, analistas e consultores de valores mobiliários.

  1. Abra o Portal do Investidor, no navegador do celular, e entre em Ferramentas > Consulta a Profissionais de Mercado.
  2. Escolha o tipo de profissional que corresponde ao serviço oferecido.
  3. Siga a orientação da aba correspondente para pesquisar quem faz a oferta.
  4. Compare o resultado com os dados de quem falou com você.

A página avisa um detalhe importante para quem recebe oferta pela internet: serviços podem vir "disfarçados" de cursos, webinars ou apresentações educacionais. Sem registro, a oferta pode ser irregular. Se o registro aparece, ainda vale conferir se contato e site batem, como explicamos em como checar a oferta de investimento na CVM.

Quando o robô negocia criptomoeda

Aqui o cuidado é outro. A página da CVM sobre robôs trata de valores mobiliários, e criptoativo pode ou não ser valor mobiliário. Por isso, não dá para dizer que o registro na CVM resolve tudo quando o robô opera cripto.

Para as corretoras de cripto, o Banco Central tem regras próprias, com prazo de autorização para quem já atua. Está explicado em corretora de cripto sem aval do BC.

Antes de pagar ou entregar qualquer dado

Uma lista curta, para olhar com calma, sem pressa de "garantir a vaga":

  • Procure o registro do prestador na consulta da CVM antes de qualquer pagamento.
  • Desconfie de garantia: retorno fixo, percentual certo ao mês, "sem risco".
  • Desconfie de pressa: contagem regressiva e vaga limitada empurram a decisão antes da checagem.
  • Não entregue senha nem códigos de acesso da sua conta a ninguém.
  • Pergunte quem decide a estratégia e o que acontece com o seu dinheiro.

Se não achar o registro, a CVM diz que o investidor pode apresentar consulta, reclamação ou denúncia pelos canais de atendimento do órgão.

Se o dinheiro já saiu

Se o pagamento foi por Pix, o primeiro movimento é no banco: o pedido de devolução, o MED, é aberto pelo app, e o guia MED do Pix: como pedir a devolução mostra o passo a passo e os prazos. Guarde prints, comprovantes e conversas, e veja onde denunciar golpe digital.

Nenhum desses caminhos garante o dinheiro de volta: quem analisa e decide é o banco. Por isso a checagem antes do Pix é a parte que está nas suas mãos.

Fontes

Mais sobre

Para continuar no assunto