Pular para o conteúdo

Renda extra avaliando produto pede "recarga"? É o golpe da tarefa

A Polícia Civil de MS fez nesta terça (29) a Operação Cashback contra o golpe da renda extra. Veja como a fraude começa no celular e como pedir o Pix de volta.

Por Redação Celular de Perto · Edição: Bruno Teles
·

Viatura da DERCC, a delegacia de crimes cibernéticos da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, em imagem divulgada pela corporação sobre a Operação Cashback
Foto: Divulgação/PCMS. Fonte original

Se a proposta de renda extra paga pequenas comissões e depois pede "recarga na plataforma" ou "taxa de liberação", é o golpe da tarefa. Trabalho de verdade não cobra para pagar.

Nesta terça-feira (29), a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul deflagrou a Operação Cashback contra um grupo suspeito de aplicar esse golpe em vários estados. A investigação começou com uma vítima de MS que, segundo a polícia, perdeu mais de R$ 60 mil depois de mais de 20 transferências para uma falsa plataforma de "validação de produtos digitais".

O que a Operação Cashback encontrou

A ação foi da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC). Foram cumpridos 10 mandados de busca e apreensão em São Paulo (SP), Anápolis (GO) e Santo Antônio do Descoberto (GO), segundo o relato da Polícia Civil publicado pelo Campo Grande News e pelo JD1 Notícias.

De acordo com a investigação, o grupo tinha núcleos em São Paulo e em Goiás e usava criptomoedas, empresas de fachada, sites próprios e grupos de mensagens para dificultar o rastreamento do dinheiro. Celulares e outros aparelhos foram apreendidos nos endereços.

Os dez investigados foram indiciados por fraude eletrônica, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Somadas, as penas podem chegar a 21 anos de prisão, segundo a Polícia Civil.

Como o golpe da tarefa chega ao celular

O roteiro descrito pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) começa com uma mensagem no aplicativo de conversa. O golpista se apresenta como funcionário de uma empresa de marketing digital que estaria selecionando gente para trabalhar pela internet.

A tarefa parece simples: curtir fotos, comentar, seguir contas de lojas nas redes sociais ou, como no caso de MS, "validar" produtos numa plataforma. A promessa, segundo a Febraban, vai de R$ 100 a R$ 1.500 por dia.

Quem aceita é colocado num grupo de mensagens. É ali que o golpe ganha plateia: outros participantes postam comprovantes de pagamento o tempo todo, e a vítima passa a acreditar que só ela ainda não está ganhando.

Por que as primeiras comissões caem de verdade

É o que dá nome à operação. No começo, a vítima recebe o dinheiro de volta com um acréscimo, a tal comissão ou "cashback". Pela descrição da polícia, a vítima de MS pagava para divulgar os produtos e recebia os valores de volta aumentados.

A Febraban explica o motivo: os golpistas depositam valores baixos para gerar confiança. O pagamento pequeno é o anzol, porque convence a pessoa de que a plataforma paga e de que vale colocar mais.

"Recarga" e "taxa de liberação": a hora do golpe

Depois de alguns ciclos, chega a tarefa que exige pagamento antecipado. O exemplo da Febraban: pagar R$ 1.000 para receber R$ 1.500 no mesmo dia. No caso investigado em MS, os pedidos vinham com os nomes "recarga na plataforma" e "taxa de liberação".

Cada nova cobrança promete destravar o saldo acumulado na tela, que nunca sai. Quando a vítima para de pagar ou desconfia, o roteiro termina do mesmo jeito, nas palavras de Adriano Volpini, diretor do Comitê de Prevenção a Fraudes da Febraban: os golpistas bloqueiam o usuário do grupo e somem.

Sinais para sair do grupo na hora

Qualquer um destes pontos, sozinho, já basta para desconfiar:

  • pedem dinheiro para você trabalhar ("recarga", "taxa", "tarefa premium", "nível VIP");
  • o saldo aparece num site ou app da própria "empresa", mas só sai depois de um novo depósito;
  • o ganho prometido é alto para uma tarefa de segundos, como curtir ou avaliar;
  • o contato chegou do nada, por número desconhecido, sem entrevista nem contrato;
  • o Pix vai para pessoa física ou para uma empresa sem ligação com a marca citada;
  • o grupo pressiona com comprovantes de outros "colegas" e prazo curto para aproveitar.

"Pare, pense e sempre desconfie de proposta de trabalho que você tenha que pagar antes de receber o dinheiro", orienta Volpini. A Febraban acrescenta: nunca deposite dinheiro na conta de ninguém para garantir uma oportunidade ou negócio.

Trabalho de verdade e golpe da tarefa lado a lado

Ponto Trabalho real Golpe da tarefa
Quem paga A empresa paga você Você paga a "plataforma"
Contrato Há contrato ou cadastro formal Só grupo de mensagens
Ganho Compatível com o serviço R$ 100 a R$ 1.500 por dia por curtidas
Saque Cai na sua conta sem condição Só depois de "recarga" ou "taxa"
Contato Canal oficial da empresa Número desconhecido que chama você

Se a oferta se parece com aplicação de dinheiro, com promessa de rendimento, vale checar também o registro na Comissão de Valores Mobiliários: veja como conferir na CVM se a oferta é autorizada. E se a isca é uma vaga com carteira, o roteiro muda um pouco; está em como saber se a vaga de emprego no WhatsApp é golpe.

Mandei Pix para a plataforma: o que fazer agora

A Febraban diz que quanto mais rápido o aviso ao banco, maior a chance de recuperar o valor junto aos outros bancos. A ordem prática:

  1. Pare de pagar, mesmo que o grupo diga que falta "só mais uma taxa" para sacar.
  2. Avise o seu banco pelo canal oficial do app ou pelo telefone do cartão e peça o bloqueio de segurança.
  3. Conteste cada Pix no app do banco pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED).
  4. Guarde prints do grupo, do site da plataforma, dos comprovantes e das chaves Pix que receberam o dinheiro.
  5. Registre boletim de ocorrência, de preferência na delegacia on-line do seu estado.

O caminho completo, com os canais de cada órgão, está em como denunciar golpe digital.

O MED devolve o dinheiro nesse golpe?

Pode devolver. Pelo guia do Banco Central, o MED vale para Pix feito porque um golpista enganou você, mesmo que você tenha digitado a senha. O pedido é feito no app do banco em até 80 dias depois de cada Pix; o passo a passo está em como pedir o dinheiro de volta pelo MED.

A devolução depende de ainda haver saldo nas contas que receberam. Por isso a pressa conta: no caso de MS, a polícia diz que o dinheiro passava por empresas de fachada e criptomoedas, justamente para sumir rápido.

Cada transferência precisa ser contestada. Quem fez 20 Pix para a mesma "plataforma" deve abrir o pedido para todos, não só para o último.

Quem empresta a conta também responde

Os golpes da renda extra precisam de contas para receber o dinheiro das vítimas. Às vezes, o próprio "trabalho" oferecido é receber e repassar valores pela sua conta, em troca de comissão.

Não aceite. A conta que recebe e repassa o dinheiro das vítimas é a trilha que a polícia segue, e o dono dela entra na investigação. Na Operação Cashback, a lavagem de dinheiro está entre os crimes do indiciamento, ao lado da fraude eletrônica.

Fontes

Mais sobre

Para continuar no assunto